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Uma música inconveniente por Alberto Bertolazzi.

Uma música inconveniente 

INTRODUÇÃO

Não sou biólogo, não sou engenheiro ambiental nem possuo conhecimentos técnicos sobre os ecossistemas terrestres. Mas uma coisa ficou clara para mim desde os tempos de escola: a importância das florestas. Ainda criança, aprendi que dependemos das árvores para viver já que uma das funções delas é a capacidade de realizar a fotossíntese. Como sabemos, a fotossíntese é o processo por meio do qual as plantas e alguns outros organismos vivos transformam energia luminosa em energia química, processando dióxido de carbono (CO2), água (H2O) e minerais na produção de compostos orgânicos e oxigênio gasoso (O2). A fotossíntese é, portanto, um processo biológico fundamental para a manutenção da vida na Terra. Não adianta me dizerem que na Idade Média a Terra já foi mais quente do que é hoje ou que venham com outras argumentações. Se o homem continuar derrubando florestas na velocidade atual, então estaremos nos encaminhando para um suicídio coletivo. É simples assim.

Para mim, essa reflexão tomou uma proporção ainda maior quando, em novembro de 2005, procurando madeiras de boa qualidade e adequadas à fabricação de instrumentos musicais, visitei diversos Estados da região amazônica. Logo na chegada, com a abertura da porta do avião, uma fumaça densa invadiu o interior da cabine, tornando difícil até a respiração. A explicação que me deram naquela ocasião foi que, com o atraso das chuvas e a floresta muito seca, eram inúmeros os focos de incêndio espalhados pela região – muitos criminosos –, fazendo com que o fogo ficasse fora de controle. À noite, tive que dormir com uma toalha molhada no rosto para facilitar a respiração.

No dia seguinte, o aeroporto foi fechado, pois a fumaça não permitia visibilidade adequada para pousos e decolagens. As aulas foram suspensas, já que muitas crianças apresentavam problemas respiratórios e os hospitais se encheram de idosos com os mesmos problemas.

Quando saí da cidade para visitar algumas comunidades exploradoras de madeira, pude ver extensões de troncos de árvores carbonizados, caídos, ainda fumegantes. A imagem era muito mais impressionante do que as centenas de fotografias que havia visto até então. Tudo isso parecia distante da realidade para quem sempre viveu em grandes centros urbanos. É algo sobre o qual, geralmente, apenas ouvimos falar, discutimos e formamos opiniões diversas, mas não nos damos conta do que realmente está acontecendo. Essa experiência proporcionou uma visão que todos deveriam ter pelo menos uma vez em sua vida, pois as ações humanas em determinada região trazem conseqüências para todo o mundo, e para cada indivíduo.

 

AS MAIORES FLORESTAS DO PLANETA

De acordo com dados da FAO (Food and Agriculture Organization) órgão das Nações Unidas, as florestas cobrem, hoje, uma área de cerca de 4 bilhões de hectares, o que equivale a 30% da superfície terrestre. Esta superfície florestal se reduz anualmente em 13 milhões de hectares e essa perda líquida se reduz para 7,3 milhões graças a projetos de reflorestamento e à expansão natural das florestas existentes.

Acredita-se que cerca de 30% da cobertura florestal do planeta tenha sido destruída no último século e outros 20% tenham sido degradados. Mais de um bilhão de hectares que eram florestas, até algumas décadas, hoje são  ocupadas por pastos ou pela agricultura.

Dez países concentram dois terços deste patrimônio: Brasil, Congo, Índia, Indonésia, Peru, Austrália, Canadá, Rússia, Estados Unidos e China.

A América Latina, com seus 924 milhões de hectares, representa 23% da área florestal do planeta. Após a Rússia, o Brasil, é o país com maior área florestal do mundo, possuindo em seu território cerca de 52% das florestas da América Latina, e a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia.

Muito tem se falado sobre o desmatamento da Amazônia e verdadeiras campanhas tem sido organizadas em todo planeta. Entretanto podemos observar pelos dados abaixo que o índice de dematamento tem decrescido nestes últimos anos.

Dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia:

Ano de 2001 a 2002 desmatamento 21.651 km2

Ano de 2002 a 2003 desmatamento 25.936 km2

Ano de 2003 a 2004 desmatamento 27.772 km2

Ano de 2004 a 2005 desmatamento 19.014 km2

Ano de 2005 a 2006 desmatamento 14.286 km2

Ano de 2006 a 2007 desmatamento 11.651 km2

Ano de 2007 a 2008 desmatamento 12.911 km2

Ano de 2008 a 2009 desmatamento 7.464 km2

Ano de 2009 a 2010 desmatamento 6.451 km2

Ainda assim, a Amazônia é a maior floresta tropical do mundo, tendo seu bioma espalhado por 6,6 milhões de Km2, distribuídos por 9 países da América do Sul.

Segundo publicações do jornal O Estado de S. Paulo, historicamente, o desmatamento já degradou 17% da Amazônia, o que equivale a 700 mil Km2 em 500 anos, desde o início da colonização do Brasil. A maior parte do desmatamento ocorre em função do fornecimento de madeira, carvão, carne e soja, tanto para o mercado nacional quanto para o internacional. Esses dados são assustadores, quando pensamos na importância dessa floresta para o planeta, tendo em vista que, para cada quilômetro quadrado desmatado, estima-se que 45 a 55 mil árvores são derrubadas.  Por exemplo, de acordo com publicação do mesmo jornal, em apenas um raio de 150 km, existem mais espécies de aves do que no Canadá e nos EUA juntos. Em uma só árvore na Amazônia foram identificadas 95 espécies de formiga, enquanto em toda a Alemanha existem apenas 85 espécies. A biodiversidade é tão exuberante que, em 1 hectare de floresta, chegam a existir 100 tipos de árvores diferentes. Além disso, a Amazônia é capaz de absorver mais do que todo o carbono emitido hoje pelo Brasil, sendo que 75% dessas emissões são provocadas pelo seu próprio desmatamento.

Depois do marfim e dos diamantes, chegou a vez da madeira ser explorada no Congo, possuidor da segunda maior floresta tropical do mundo, com 1,7 milhão de Km2. De acordo com pesquisa do Woods Hole Research, cerca de 30% das florestas, ou seja, 600 mil Km2 (uma área maior que a França) estão entregues à exploração madeireira de árvores nobres, como a afrormosia, o doussié e o moahi, de alto valor comercial, e que estão ameaçadas pela exploração desenfreada. Em 2002, o governo declarou uma moratória na concessão de licenças para a exploração da floresta, em uma tentativa de diminuir a devastação. Entretanto, a iniciativa não logrou êxito, em parte devido à corrupção e em parte devido à exportação de madeira para países consumidores que não têm leis específicas para impedir a importação de madeiras ilegais.

Segundo a organização WRM (World Rainforest Movement), a legislação florestal na Índia de 1865 e 1927, na realidade, serviu para legitimar o que era puro saqueio florestal científico das florestas, em poder dos britânicos, permitindo que a maioria das florestas da Índia se perdesse para sempre. Dados mais recentes, fornecidos por órgãos daquele país, informam que a Índia continua perdendo sua cobertura florestal, registrando uma perda líquida anual de cerca de 3 milhões de hectares por ano. Do Relatório do Estado das Florestas percebe-se que a perda atinge todo o país e não uma área específica.

A Indonésia tem grandes problemas com a extração de madeiras. Dos seus 120 milhões, 60 milhões de hectares, ou seja, a metade, já foram destruídos ou degradados e, se for mantido esse ritmo, as florestas no país sobreviverão aproximadamente por apenas mais 20 anos aproximadamente. Os 3 milhões de hectares de florestas exploradas por ano são basicamente utilizados para fábricas de pasta, serrarias e fábricas de compensado, que devoram cerca de 80 milhões de metros cúbicos ao ano.

Também as florestas do Peru, segundo o WRM, estão sendo devastadas por madeireiras legais e ilegais. As espécies mais procuradas são o mogno e o cedro. Números oficiais do país indicam que os seus destinos são, principalmente, os Estados Unidos, o México, o Canadá e a Bélgica –  quase sempre violando acordos ambientais internacionais como o CITES (Convention on International Trade in Endangered Species).

No fim dos anos 1970, o governo da Austrália deparou-se com o problema do desmatamento em alta escala. Segundo a Wilderness Society, em 50 anos (de 1940 a 1990), o desmatamento no país foi superior ao índice dos 150 anos anteriores. A exposição do solo começou, então, a provocar a subida dos lençóis freáticos, que traziam sal para a superfície, inviabilizando a agricultura em grandes áreas. Em 1999, mais de um milhão de hectares foi desmatado, fato que passou a ser conhecido como “Panic Clearing”. Naquele ano, a região de Queensland teve a sexta maior taxa de desmatamento do mundo. Em 2006, uma lei proibiu o desmatamento, mas não evitou que a Austrália tivesse grandes mudanças climáticas, com redução de até 20% nas chuvas em algumas regiões, além da seca que afetou os setores de trigo e as vinícolas.

Grandes perdas também são contabilizadas na floresta boreal do Canadá e da Rússia. Dos remanescentes de florestas nativas, 60% se encontram na Rússia e região boreal da América do Norte, onde a variedade de espécies é muito pequena, com forte predominância do Pinnus. Maiores do que a Amazônia, essas florestas possuem cerca de 50% do carbono e uma grande parte da água natural da Terra. Entretanto, uma grande parte delas está sendo destruída por madeireiras canadenses e russas, preocupadas com o lucro imediato: metade das florestas do Canadá são transformadas em materiais de consumo como lenços de papel ou papéis sanitários. Na Rússia, a floresta boreal cobre cerca de 70% do território e se espalha pelas 12 regiões do país. Estimativas do governo calculam o valor dessa floresta em cerca de 164 bilhões de dólares, o que está atraindo grandes madeireiras que visam lucro rápido.

Nos Estados Unidos, 98% das florestas temperadas foram destruídas. Desde os primórdios da colonização, para dar lugar à produção de alimentos (agricultura e criação de gado), árvores foram derrubadas. Foram destruídas tantas florestas temperadas para obter produtos agrícolas, que durante décadas esses produtos existiram em maior quantidade do que o necessário, muitos economicamente inviáveis e que dependeram de subsídios governamentais, o que ainda permanece em muitos casos, como o algodão e o subsídio ao milho para produção do etanol, este último justificado pelo seu alto custo de produção. Ainda assim, a indústria da silvicultura nos Estados Unidos é uma das maiores do mundo. A maior parte da matéria prima vem do Noroeste, e o estado de Washington é o maior produtor de madeira do país. O desmatamento foi tão grande que atualmente a maior parte da madeira processada vem do exterior, principalmente do Canadá.

O caso da China é muito interessante. A enorme e ainda crescente demanda daquele mercado por madeira tem ocasionado importações maciças de madeiras provenientes da maioria dos países produtores, inclusive do Brasil e regiões do Sudeste Asiático e do Pacífico, muitas vezes de forma ilegal.

O relatório do Greenpeace, “Dividindo a culpa: consumo global de madeira. O papel da China e a destruição de florestas primárias”, aponta que, para abastecer o mercado de móveis e pisos do Japão, Estados Unidos e Europa, a maior parte da madeira utilizada e processada na China provém da América do Sul e de outros países, quase sempre de forma ilegal. As exportações de produtos de madeira nos últimos 10 anos cresceram 3,5 vezes na China e as críticas ao país, como destruidor de reservas, são comentadas amplamente em todo o mundo. Segundo o mesmo relatório, cerca de 90% da madeira amazônica seriam contrabandeados para lá.

Entretanto, de acordo com o Órgão “China ABC”, “desde a década de 50 do século passado, a China vem realizando milagres na arborização. Entre 1981 e 2002, voluntários chineses plantaram mais de 39,8 bilhões de árvores. Hoje, a área arborizada representa 46,67 milhões de hectares. Entre 1998 e 2001, o governo central da China investiu 42,7 bilhões de Yuans na proteção florestal do país. Por meio de prêmios financeiros ou em cereais, as populações são incentivadas a recuperar áreas destruídas e, em muitas regiões, operários de indústrias florestais tornaram-se protetores de florestas”.

Com esses projetos e incentivos, a China pretende atingir, em 2050, a taxa de cobertura florestal de 28% do país. É um plano ambicioso, se considerarmos que, hoje, esta área de cobertura florestal atinge 16,55% da sua superfície territorial.

Assim, enquanto a China importa amplamente madeiras das mais diversas partes do mundo muitas vezes de forma irregular, para beneficiar e, posteriormente, exportar, as suas florestas não somente permanecem intactas, como estão aumentando.

Errados? Acho que não. Dentro de um sistema capitalista voraz, enquanto alguns países procuram um ganho imediato, ainda que pequeno, pois exportam madeira bruta com pouco valor agregado, a China, graças a um planejamento adequado, preserva suas reservas florestais. Quem sabe para serem utilizadas em futuros tempos de escassez.

CONSUMO ILEGAL DE MADEIRA

O mercado europeu como um todo consome cerca de 20 milhões de metros cúbicos de madeira ilegal por ano, provenientes da floresta Amazônica e do Congo, da África Oriental, Indonésia, dos países bálticos e da Rússia. Um relatório divulgado na Europa, o WWF (Worlwide Fund for Nature) acusa os países escandinavos e Reino Unido de serem os maiores importadores de madeira ilegal, sendo o volume de suas compras equivalente a 600 mil hectares de floresta por ano. (algo em torno de 3 bilhões de dólares anuais)

O que mais impressiona é a falta de eficácia (ou interesse) para coibir estas operações ilegais, afinal das contas, um metro cúbico de madeira não é algo que se pode esconder na sola de um tênis ou no estômago do passageiro de um avião. Recentemente o navio de guerra da Marinha da Grã Bretanha, onde serve o príncipe William, apreendeu uma carga de cocaína avaliada em 80 milhões de dólares. De acordo com a notícia do jornal, a fragata HMS Iron Duke interceptou em uma operação conjunta com a Guarda Costeira Americana, um barco oceânico de alta velocidade no norte de Barbados que carregava a droga. Foi uma bonita operação, mas é óbvio que seria muito mais fácil detectar, pelo seu volume e peso, uma carga de madeira ilegal e prender os culpados e provavelmente o valor da carga seria muito maior. Acredito que deveríamos ter o mesmo empenho em combater o tráfico de drogas como a devastação das florestas, já que ambas causam danos ao ser humano.

Em outubro de 2007, a polícia brasileira, em uma operação que envolveu 350 agentes, desmantelou uma gangue que contrabandeava madeira ilegal, jacarandá, para os Estados Unidos, mais precisamente para o interior do estado de Massachusetts, madeira esta comumente utilizada para a fabricação de instrumentos musicais. Na ocasião o U. S. Fish  and Wildlife Services´s Northeast Region Office of Law Enforcement disse que fazia uma procura em Estados Americanos mas não deu detalhes, assim como as autoridades brasileiras,  e até hoje não se sabe como acabou a investigação.

É apenas um caso entre tantos outros que permanecem sem solução.

E as ONGs, o que fazem as ONGs? Segundo a matéria “As Grandes Reportagens”, publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, foram contabilizadas 29.000 somente na Amazônia, muitas delas estrangeiras, que recebem bilhões de dólares em recursos,  não existe controle algum sobre o uso desses recursos e nem mesmo legislação que regule isso, e o resultado... pode ser lido constantemente nos relatórios sobre desmatamento.

Algumas destas ONGs são boas para levantar o problema, mas se perdem na falta de objetividade e em promover ações que, em alguns casos, beiram o ridículo.

Uma delas, de forma espetacular e que mereceu ampla divulgação, conseguiu transportar uma carga de madeira ilegal do norte do Brasil até o Sul, na cidade de São Paulo, passando por vários postos de fiscalização, provando como são ineficazes os mecanismos de controle.

O mundo agradeceria se fizessem o mesmo com a madeira contrabandeada para países da Europa, Japão, América do Norte e China. Poderiam, por exemplo, começar com o Jacarandá do Brasil enviado ilegalmente para o exterior. Por que algumas ONGs não auxiliam nestes processos ao invés de promoverem congressos, jantares beneficentes e outros eventos, que na maioria das vezes mais servem para tentar angariar recursos e prestígio para os seus membros? Não seria esta a melhor maneira de diminuir o desmatamento ilegal, já que não existiria mercado para esta madeira?

Não seria a melhor maneira de eliminar o pecado, eliminando a tentação?

Para reverter este quadro líderes políticos, empresariais e representantes de organizações não governamentais, como o World Resources Institute WRI, estiveram reunidos na cidade alemã de Bonn, recentemente.

O resultado do encontro foi a criação do Conselho Global de Restauração (Global Restoration Council) , uma iniciativa que pretende restaurar 150 milhões de hectares de florestas até o ano de 2020.

No filme a “Bruxa de Blair”, sucesso de bilheteria que estreou em 1999, uma cena não passou desapercebida para as pessoas preocupadas com a preservação das florestas.

Os três estudantes estão perdidos em uma floresta da Nova Inglaterra e um deles entra em pânico, a garota. Acreditando que nunca conseguiriam sair daquela selva, para animar a companheira, um dos rapazes lhe diz: “Não seja boba, nós destruímos todas as nossas florestas temperadas. Basta andarmos meia hora e linha reta e logo estaremos fora daqui.” É uma verdade muito contundente, afinal na Europa e nos USA cerca de 98% das florestas foram destruídas.

A boa notícia é que se os personagens do filme tivessem se perdido na Amazônia teriam que andar mais de 120 dias até achar uma saída. Afinal, apesar de todas as críticas 83% da floresta Amazônica ainda permanece intacta.

MÚSICA E AS FLORESTAS

Já que estes mecanismos são ineficazes ou simplesmente, em alguns casos, por razões econômicas, não existem, acreditamos fortemente que o melhor caminho a seguir é o da educação ambiental em todas as fases da vida, mas principalmente com as crianças, já que é na infância que a capacidade de aprendizado é muito grande. Diz a educadora Arianne Rabelo Brianezi: “Quando a criança passa por uma experiência positiva e divertida com a natureza, ela carrega isso com ela, criando laços objetivos e afetivos com o meio natural. Assim suas atitudes e práticas se tornarão mais coerentes no futuro.” E sem dúvida é aqui que a música pode desempenhar um papel muito importante.

Desde a mais tenra idade, uma criança mostra interesse pela música batendo palmas, dançando desajeitadamente ou tentando cantar alguma canção, e dedica muita atenção aos seus primeiros “instrumentos musicais”: um chocalho, uma buzina ou um pandeirinho.

Além disto, o instrumento musical é algo que causa desejo, é belo, é estético, coloca em evidência quem o sabe usar. Quantas pessoas têm algum instrumento musical em casa, que ganharam ou mesmo compraram, e não conseguem tirar dele um simples acorde?

Diz  Joe Lamond, presidente da National Association of Musical Manufacturers que o mundo está dividido entre 50% dos habitantes que sabem tocar algum instrumento musical e os outros 50% que gostariam de saber tocar alguma coisa.

Se é assim, imaginemos o efeito em uma audiência cheia de jovens e o seu ídolo tocando o seu instrumento, uma guitarra, um piano ou um instrumento de percussão produzidos com madeira certificada ou de um manejo sustentável. As chances seriam muito grandes deste astro da música ser imitado, como efetivamente são imitados nos modos, nas roupas e até na maneira de falar, as grandes estrelas.

Mas onde estão estes instrumentos musicais produzidos com madeiras legais, provenientes de florestas certificadas e exploradas de uma forma justa, de maneira a remunerar adequadamente as comunidades extrativas?

Praticamente não existem. Pelo contrário, a indústria da música é uma das culpadas pela extinção ou escassez de alguns tipos de árvores mais adequadas para a confecção de instrumentos musicais. Esta é a realidade com o jacarandá, com a imbuia, com o mogno, com a granadilha, com o pau Brasil, este último há 250 anos explorado para a manufatura do arco do violino e nada foi feito nestes anos todos para preservar ou replantar este tipo de árvore. Assim é também com o spruce do Alaska, fadado a desaparecer nos próximos 20 anos, a continuar o atual nível de extração.

Ações muito tímidas, praticamente inócuas, foram feitas por alguns fabricantes de guitarras, aliás, não entendo por que, quando se fala em música e madeira certificada logo se relaciona à produção de guitarras. E os fabricantes de pianos, baterias, instrumentos de percussão, instrumentos de corda, amplificadores etc.? Todos deveriam participar deste esforço.

Segundo estimativa da Associação Brasileira dos Fabricantes de Instrumentos Musicais e da CAFIM – Confederation of European Music Industries, o mercado mundial de instrumentos musicais é de aproximadamente US$ 25 bilhões de dólares e mais de um terço refere-se a instrumentos que usam madeira e isto é um monte de madeira.

É verdade, a construção civil, a indústria moveleira e a indústria de pisos, por exemplo, consomem muito mais madeira do que a indústria de instrumentos musicais, mas dois pontos devemos ressaltar: o primeiro é o da responsabilidade social, todos temos o dever de proteger o meio ambiente. O segundo está ligado à visibilidade do instrumento musical. Embora todos os setores sejam importantes e tenham que assumir as suas obrigações, é evidente que uma guitarra é mais visível do que uma viga de uma casa, as linhas elegantes de um violino chamam mais atenção do que um piso. Imaginemos por exemplo um pop-star dizendo que usa um lenço de papel proveniente da celulose de uma floresta certificada. Agora imaginemos o mesmo astro tocando seu instrumento musical em uma platéia com milhares de espectadores, divulgando a idéia da sustentabilidade e ele mesmo dando o exemplo usando um instrumento ecologicamente correto.

Então por que a indústria da música nada ou pouco faz para produzir instrumentos adequados, por que não toma a iniciativa de tantos outros setores, como o automobilístico, cada vez mais empenhado em produzir um carro verde, a indústria de eletrodomésticos que está produzindo aparelhos que cada vez consomem menos energia, redes de supermercados que dão preferência a produtos ecologicamente corretos, livros impressos em papel com selo verde e até redes de hotéis que promovem o uso racional da água e dos detergentes nas suas dependências?

Uma executiva de um grande fabricante de violões declarou que viaja o mundo inteiro para procurar madeiras adequadas, já que, pelas propriedades estruturais e de tonalidade, não se pode fazer um instrumento com qualquer coisa. É verdade, no entanto, que em uma pesquisa realizada, um laboratório no Brasil detectou mais de 10 madeiras adequadas, existentes em boas quantidades, para o corpo de uma guitarra, cerca de seis para a confecção do braço e da escala do mesmo instrumento, isto comparando-se as madeiras testadas com as tradicionalmente usadas pela indústria. Outras pesquisas poderiam ser produzidas para todos os setores da música, quem sabe financiadas pelos próprios fabricantes.

Recentemente um grande produtor de guitarras promoveu um encontro com diversos jovens e comunicou-lhes que certas madeiras usadas para a produção de alguns instrumentos ali expostos estavam em vias de extinção. Em uma sala ao lado, através de um espelho falso, puderam constatar a preocupação daqueles jovens em adquirir rapidamente uma daquelas guitarras antes que acabassem. Provavelmente foi a mesma reação que alguns músicos tiveram ao tomar conhecimento de que o luthier Antônio Stradivari não fabricaria mais os seus famosos violinos. No entanto, hoje já quase não existem Stradivarius, são estimados apenas 650 no mundo, mas milhares de orquestras sinfônicas continuam nos brindando com o som de concertos maravilhosos. O que queremos salientar aqui é que, se foram criados modismos estabelecidos em uma época de abundância, a indústria da música tem que se adaptar e pesquisar novas madeiras, ainda em abundância, adequadas à fabricação de instrumentos musicais. Elas existem sim, talvez não na mesma cor ou com a mesma aparência, mas com propriedades tão boas quanto as utilizadas até hoje. Exemplos existem muitos, como o Adirondack Spruce, utilizado por décadas para a fabricação de violões, hoje não mais disponível e substituído pelo Sitka Spruce, e os violões feitos de birch e cerejeira, ambas madeiras certificadas, e que tanto agradam ao grande músico Orianthi, assim como a guitarra do Durval Lelys da banda Asas de Águia, produzida com cedro certificado.

Parte dos consumidores inicialmente não aderirá a esta idéia, mas, por outro lado, pesquisa realizada na Europa mostra que uma nova categoria de jovens entre os 16 e 24 anos está surgindo: os extremistas verdes,  que já representam 25% da sua geração e adotam critérios ecologicamente corretos nos seus hábitos de consumo e na vida pessoal e estão dispostos a pagar um pouco mais caro por isto. E o que dizer do exemplo dado por grandes astros como Leonardo di Caprio, Cameron Diaz, Billy Joel, Bill Maher e Larry David, entre muitos outros, que deixaram os seus potentes carrões na garagem e preferem utilizar o pequeno Toyota Prius, um carro híbrido, para mostrar que são consumidores conscientes?

O lado irônico disto tudo é o quanto tem se falado nos últimos tempos sobre a crise financeira que o mundo está atravessando. Diariamente somos bombardeados com notícias sobre sub-prime, queda nas bolsas de valores, bancos tradicionais fechando suas portas e governos aplicando bilhões de dólares para apaziguar investidores. O fim disto todos nós já sabemos, teremos durante algum tempo um aperto financeiro e o PIB de alguns países neste período cairá mas daqui a pouco, dois ou três anos,  voltará ao normal, ou seja, a mesma situação anterior à tão falada crise. Os bancos voltarão a funcionar normalmente usufruindo dos mesmos lucros que tem tido nas últimas décadas, os países industrializados voltarão a crescer, arrastando os emergentes e assim em dois ou três anos começaremos um novo período de estabilidade.

E fica a pergunta: por que as mesmas forças (e recursos) não se movimentam para salvar o planeta? Sabemos quantos anos serão necessários para recuperar uma mata ciliar ou uma floresta ou despoluir um rio, muito mais do que dois ou três anos, mas sim décadas. Então por que não começamos logo?

Acabou a era do “deixa pra depois”.

O Lacey Act de 1900 e os instrumentos musicais:

O Lacey Act de 1900 é uma lei que passou a vigorar nos USA a partir de 25 de maio de 1900. O seu idealizador foi o representante do estado de Iowa, Rep. John F. Lacey e a lei foi assinada pelo Presidente William McKinley e está ainda vigorando, embora tenha sofrido diversas emendas durante estes anos.

É uma lei proclamada para preservar o meio ambiente, embora no início ela fosse mais dirigida para proteger a vida de animais selvagens e plantas ameaçadas de extinção. Ela criou penalidades civis e criminais para uma gama grande de violações como comércio de animais selvagens, peixes e plantas que foram capturadas, extraídas, transportadas ou vendidas ilegalmente.

Em 22 de maio de 2008 o Lacey act recebeu um emenda quando o Food Conservation and Energy Act de 2008 expandiu a proteção para uma grande variedade de plantas e produtos elaborados com madeira. (seção 8204 – prevenção de extração de madeira ilegal)

Em função desta nova emenda, no dia 16 de novembro de 2009, os empregados da Gibson Guitar em Nashville foram surpreendidos com um mandado de busca emitido pela U. S. Fish & Wildlife Services procurando jacarandá e ébano que possivelmente tinham sido importados do Brasil e de Madagascar. Logo depois da busca a Gibson emitiu um comunicado dizendo que a empresa adquire madeiras de fornecedores certificados ou não e que cooperaria completamente com os agentes federais.

Outros fabricantes de instrumentos musicais, diante dos fatos, declararam que madeira não tem número de série ou etiquetas estampadas dizendo o país de origem e que para produtores de instrumentos musicais em larga escala seria praticamente impossível atender 100% o determinado pelo Lacey Act.

Como resposta em abril de 2010, uma revisão do Lacey Act determinou que todas as entradas nos USA de pianos, guitarras e violinos deverão ser acompanhados por uma declaração listando entre outras coisas, o nome científico de todas as madeiras utilizadas na importação destes produtos assim como o país de origem destas madeiras. A não obediência a esta regulamentação será considerada um crime e apreensão dos produtos. Mais importante, não haverá nenhuma tolerância para a alegação de desconhecimento ou a falta desta documentação. A lei se aplica também a instrumentos musicais produzidos antes de abril de 2010 assim como todos os instrumentos usados.

Recentemente em 26 de agosto de 2011 agentes do U. S. Fish and Wildlife Service novamente estiveram na Gibson Guitar em Nashville e apreenderam diversos pallets de madeira e guitarras. O Presidente da empresa reagiu defendendo a companhia e acusou os agentes federais de bulling. Ele alegou que a madeira apreendida era de um fornecedor certificado pela Forest Stewardship Council, um dos maiores e mais respeitados “selos verdes” do mundo. A questão parece ser relativa a importação ilegal de ébano proveniente de Madagascar, utilizado para confecção de escalas nas famosas guitarras.

Pete Lowry, um especialista em jacarandá e ébano do Missouri Botanical Garden, designa o comércio de madeira de Madagascar como o equivalente aos “Diamantes de Sangue Africanos”.

Segundo os consultores Barnes & Richardson de Chicago, Illinois, “temos que considerar que ninguém tem direito de importar. Importar é um privilégio que vem acompanhado de diversas obrigações incluindo pagamento de taxas de importação, documentação apropriada e a legalidade da mercadoria. É obrigação do importador provar que as mercadorias são admissíveis. No que se refere ao Lacey act isto significa que ter os documentos corretos é ser hábil para provar a sua veracidade pode ser, às vezes, muito difícil.”  

Isto pode tornar as coisas muito complicadas para a indústria de instrumentos musicais. Uma legislação clara e mais objetiva seria necessária para evitar que até empresas tradicionais, sérias e realmente envolvidas em projetos de sustentabilidade fiquem a mercê do bom senso e da boa vontade de agentes federais, algumas vezes nem  bem preparados para esta função.

 Este assunto promete novos desenvolvimentos inclusive para as chamadas “vintage guitars” e até teclados de piano feitos de marfim. Os felizes proprietários destes instrumentos deverão, da melhor forma, procurar obter certificados de que os instrumentos foram produzidos antes das madeiras ou outros itens terem sido declarados ilegais.

CONCLUSÃO

Para não cometer o erro de outras matérias, que apenas levantam os problemas mas não indicam possíveis soluções, disponho-me a fazer duas sugestões. A primeira se refere ao reflorestamento com espécies notoriamente adequadas à fabricação de instrumentos musicais. É mais fácil e menos oneroso do que parece e o Estado do Acre, no Brasil, nos dá um bom exemplo. Foi criado neste estado há alguns anos, pela Secretaria da Floresta, um viveiro que produz 4 milhões de mudas de árvores nativas por ano. Assim, além de preservar espécies em perigo de extinção, como o mogno e o pau ferro, ajudam a reconstruir a mata ciliar e geram trabalho para mais de 1000 famílias de diversas comunidades, fixando e dando boas condições de vida ao povo da floresta.  E assim teríamos madeira adequada em boas quantidades, graças a novas tecnologias de plantio e irrigação, dentro dos próximos 20 anos. Parece muito tempo? Chris Martin IV, representando a sétima geração de fabricantes dos famosos violões Martin, em recente entrevista sobre as dificuldades de se obterem hoje as madeiras para os seus violões, declarou que gostaria de ter começado a fazer algo 50 anos atrás. Bem, eu diria, vamos começar agora, em larga escala, ou então os seus descendentes dirão a mesma coisa daqui a outros 50 anos.

A segunda é mais objetiva e eficaz a curto prazo. Com certeza o não oferecimento e a falta de divulgação de uma linha de instrumentos musicais produzida a partir de madeira certificada ou de manejo sustentável é a incerteza de se obter e falta de continuidade no oferecimento destas madeiras. Nenhum fabricante se comprometerá seriamente a produzir tais instrumentos e promover campanhas publicitárias se não tiver certeza de contar com estas madeiras em uma quantidade razoável e constante, esta é a realidade. Neste caso, existem diversos projetos cujo objetivo é exatamente este, o que falta é um apoio maior, inclusive investimentos. E de onde deverão vir estes investimentos? Provavelmente da própria indústria da música ou de investidores institucionais envolvidos em projetos ambientais. Os grandes bancos estão mais preocupados em nos informar o quanto estão preocupados em salvar a Terra. Uma pequena parte do que eles gastam nestes programas publicitários já viabilizaria muitos projetos na área da sustentabilidade que existem por aí.

Al Gore encerra as suas palestras mostrando que não podemos fazer nada para proibir a fabricação de armas, a construção de usinas nucleares e combater o terrorismo, mas podemos fazer alguma coisa, individualmente,  para diminuir a devastação do meio ambiente. A guitarra, que eu uso para me acompanhar quando resolvo cantar alguma música romântica para a minha mulher, é feita com madeira  certificada com selo verde do Forest Steward Council. E a sua?

Alberto Bertolazzi

Diretor Hering Instrumentos Musicais

Presidente do ICHH – Instituto Cultural Hering Harmônicas.

Presidente da FALAMUSICA – Fórum Latino Americano da Música

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Guitarra produzida pela Hering em Janeiro de 2008, mediante licenciamento do Greenpeace.

Características:

  • Nenhuma parte de plástico foi produzida.
  • Madeira do corpo e braço: cedro certificado pelo FSC.

Origem: Amazônia.

  • Madeira da escala: pau ferro certificado pelo FSC.

Origem: Amazônia.

  • Os captadores foram produzidos pela Malagoli (SP-Brasil) com o corpo de madeira sucupira certificado pelo FSC.

Origem: Amazônia.

  • Todas as partes metálicas foram submetidas a processo de cromação pela Boreal (Joinville-SC) empresa que detém todas as autorizações ambientais para este tipo de processo.
  • Pintura da guitarra foi utilizada para acabamento tinta Y050-1245-00 BA a base de água, desenvolvida e produzida na Itália pela Sayerlack.